No dia em que Lula abre a Conferência, Adilson Araújo, da CTB, destaca que redução da jornada para 40 horas é medida civilizatória capaz de gerar 4 milhões de empregos e combater mortes no trabalho.
por Cezar Xavier
Publicado 03/03/2026 15:03 | Editado 03/03/2026 17:01

Rio de Janeiro (RJ), 10/07/2025 – Trabalhadores e movimentos sociais fazem manifestação pelo fim da escala de trabalho 6 x 1 e pela taxação dos super-ricos, na Praça XV. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
O Teatro Celso Furtado, no complexo do Anhembi, em São Paulo, recebe nesta terça-feira (3) a solenidade de abertura da II Conferência Nacional do Trabalho, marcada pela presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e por uma ampla mobilização das centrais sindicais. Em um cenário de retomada do diálogo tripartite após dez anos de interrupção, a luta pelo fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho por um de descanso) emerge como o ponto central da agenda.
Em entrevista ao Portal Vermelho, Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), enfatizou que a redução da jornada não é apenas uma reivindicação corporativa, mas uma necessidade urgente de avanço civilizatório para o Brasil.
Uma luta secular e o compromisso não cumprido
Araújo contextualizou a demanda pela redução da jornada de trabalho como parte de uma “luta secular” que remonta ao século XIX e que encontrou na Constituição Cidadã de 1988 seu maior marco, ao reduzir a jornada de 48 para 44 horas semanais. No entanto, o dirigente sindical lembrou que o passo seguinte, a redução para 40 horas, já havia sido pactuado politicamente em 2011. Na ocasião, mais de 500 sindicalistas firmaram compromisso com a então presidência da Câmara dos Deputados, argumentando que a elevada produtividade e os recordes de lucratividade das empresas justificavam a mudança.

Adilson Araújo, presidente da CTB
“Infelizmente, esse acordo não saiu do papel”, lamentou Araújo, destacando que foi a manutenção da “chama acesa” pelo movimento “Vida Além do Trabalho” (VAT), através de redes sociais e abaixo-assinados, que galvanizou a empatia da sociedade. Hoje, segundo ele, há um consenso nacional de que “é chegada a hora de pôr fim a tão exaustiva e penosa jornada de trabalho seis por um”.
Sintonia com a modernização e saúde do trabalhador
O presidente da CTB apontou que o debate ganhou nova força também no âmbito do governo federal. Ele citou declarações recentes do vice-presidente Geraldo Alckmin, que, ao responder a inquietações do setor industrial, afirmou que a redução da jornada está em “sintonia com as mudanças que atravessam o mundo”.
Segundo Araújo, investimentos tecnológicos, automação e inteligência artificial permitem que o mercado absorva jornadas menores, impactando diretamente a saúde do trabalhador, na vida familiar e na qualificação profissional.
A urgência da medida é corroborada por dados alarmantes sobre segurança no trabalho. “O Brasil figura entre os países do G20 como o segundo país com maior incidência de óbitos por acidente de trabalho”, alertou Araújo, lembrando que, no cômputo geral, o país ocupa o terceiro lugar mundial nesse triste ranking.
Para o sindicalista, reduzir a jornada é essencial para “garantir um meio ambiente de trabalho mais saudável, mais humano e menos desigual”.
Desmistificando a ociosidade e gerando empregos
Adilson Araújo dedicou parte de sua análise a desconstruir o argumento patronal de que o trabalhador brasileiro seria ocioso. Comparativamente, o Brasil possui uma carga horária semanal similar à de potências industriais como Rússia, Coreia do Sul e Estados Unidos (entre 38 e 39 horas semanais na média), enquanto supera nações emergentes como Índia (47), China (46) e México (44).
“É calunioso dizer que o trabalhador brasileiro é ocioso”, afirmou, classificando as teses contrárias como sustentadas por um “deus mercado” alheio ao custo de vida e ao sofrimento humano.
A proposta da CTB insere a redução da jornada em um novo projeto de desenvolvimento baseado na reindustrialização, no investimento em engenharia nacional e na política de conteúdo local. Araújo foi enfático ao projetar os benefícios econômicos da medida: a transição para a escala 5×2, com a redução para 40 horas semanais sem corte salarial, é o “fator decisivo para gerar a oportunidade de 4 milhões de novos empregos”.
Diante do quadro de pleno emprego, mas com 90% dos trabalhadores ganhando até R$ 3.500,00, Araújo concluiu que o Brasil não tem mais tempo a perder. “É chegada a hora de reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais e, pôr fim, de uma vez por todas, à famigerada escala seis por um”, declarou, transformando a Conferência Nacional do Trabalho em um palco decisivo para essa conquista histórica.
Fonte: Portal Vermelho
Autor: Cezar Xavier
Fotos: Fernando Frazão/Agência Brasil
Data:03/03/2026